
Walter Benjamin em seu ensaio “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” mostra como, em alguns aspectos, a produção em massa de produtos culturais vão de encontro com alguns dos antigos cânones da estética. Ao contrário de seus coleguinhas de escola, tal como Adorno, Benjamin não vê essa mudança de paradigmas como algo negativo, mas sim como um processo natural de uma sociedade industrial. Apesar de poucas pessoas ainda terem contato com a “alta cultura”, é muito fácil encontrar argumentos baseados no tipo de valoração utilizado na crítica cultural do século XIX, baseados em uma estética romântica e/ou racionalista.
A primeira sistematização da estética como disciplina se deu em 1750 por Baumgartem. Entretanto, se Baumgartem a idealizou como um estudo sobre as coisas que podem ser conhecidas pêlos sentido, a natureza do estético e da estética mudaram com o passar dos anos. Apesar de seu nascimento como uma “ciência da cognição”, no século XIX a estética caminhou para ser algum tipo de filosofia da arte, estudando a relação do homem com o belo (finalidade da arte) e dando parâmetros para os críticos culturais da época.
As definições de Kant e de Hegel deram subsídios para a formação de uma estética, e de uma ideologia artística, romântica e aristocrática. Para Kant, um juízo estético não fornece absolutamente nenhuma cognição do objeto, e é, portanto, desinteressado. A experiência artística estaria descolada da vida cotidiana e não pode, nem deve, sofrer influencias externas. Já Hegel via a estética como um estudo da representação na arte, um estudo da expressão sensória pela qual o espírito estaria apto a ter acesso `a verdade. Essas duas idéias, a separação entre arte e mundano e o componente reflexivo da arte, guiaram a critica artística por muito tempo e podem ser notadas nas obras de estetas como Adorno e Croce. Segue algumas características da obra de arte que foram postas em dúvida com a expansão da cultura de massa.
Originalidade: No romantismo o artista poderia ser comparado a um criador divino que cria do vácuo absoluto. O gênio romântico deveria criar apenas a partir de sua mente abençoada, não aceitando qualquer interferência externa. Fenômenos como as equipes de criação, além da reutilização de matérias formais já existentes (o sampling por exemplo) complexificam essa noção.
Unicidade: A Obra de Arte é única e irreprodutível. Aqui está o ponto central do texto de Benjamin. A dicotomia entre o valor de culto e o valor de exposição norteia boa parte de seu ensaio.
Autonomia: A arte foi posta em um domínio a parte da vida cotidiana, separando o prazer estético tanto dos prazeres mundanos como dos prazeres corporais. A arte não deveria ter qualquer motivação ou finalidade (Arte pela Arte). Em primeiro lugar, por ser um texto político antes de tudo, o ensaio de Benjamin procura negar essa idéia com sua proposta de politizar a arte.
Os chiliques de Adorno pelo menos serviram para mostrar algo: realmente, a cada dia a Arte (essa com A maiúsculo e digna de aparecer nos slides das aulas de História da Arte) passa a fazer parte da vida de menos pessoas, enquanto a maioria dos pobres mortais caem nos braços da cultura de massa. Parece que nosso vinculo com a mal fadada “indústria cultural” é indissolúvel, nós nascemos e crescemos nos tempo da obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Será que vale a pena mesmo nadar contra a maré e lutar pela verdadeira Arte nesses tempos de barbárie?
A Arte não é uma entidade universal, é um conceito que data do renascimento e nasce quando Giotto assina seus primeiros quadros. Teve uma vida conturbada e movimentada, se reproduziu em diversas outras formas expressivas e morreu de morte matada e de morte morrida incontáveis vezes durante o século XX. Se ela hoje não ocupa mais uma posição de destaque em nossa cultura, paciência. Esta é a boa nova: já podemos parar de fingir que gostamos daquelas instalações estranhíssimas.
A Arte nasce exatamente de uma separação entre a esfera do cotidiano e a esfera artística. Esta separação foi se tornando cada vez mais radical e Arte passou figurar em um eterno ciclo de auto-citação/auto-referência e perdeu qualquer contato com o nosso cotidiano. Nem sempre foi assim, a cultura de massa retoma uma idéia de arte que se assemelha muito à da Grécia Antiga e da Idade Média. A tecné grega ou a ars medieval não estavam, de maneira nenhuma, separada do cotidiano e eram apreciadas exatamente por seu caráter usual e funcional.
Esqueçamos o gênio incompreendido, aquele atormentado por seus demônios interiores e que tem na Arte sua única forma de viver. Os artistas de nossa época são os publicitários que divertem milhões de pessoas todos os dias e estão inteiramente conectados com as outras esferas da sociedade (principalmente o ecônômico, diga-se de passagem). Que magavilha!

texto publicado no zine peteleco
Há quem acredite em versões muito imediatas sobre a causa do histórico atentado de 11 setembro. Iraquianos, muçulmanos, grupos terroristas internacionais e o pobre Bin Laden não passam de bodes expiatórios. Ou manipulação política do mega império norte-americano ou, simplesmente, ignorância dos inumeráveis analistas políticos e estrategistas de guerra que permearam as tvs durante e depois do ocorrido. A verdadeira causa é tão óbvia que ninguém notou – a velha história da “Carta de Goovre”, sábio Poe.
Em 11 de setembro nasceu Theodor Wiesengrund Adorno. Suas pregações contra a irracionalidade e barbárie da vida contemporânea correram todo Ocidente: para ele a decadência da humanidade encontrou seu auge na sociedade capitalista (e esta, como sabemos, encontrou o seu no E$tados Unidos da América). O pseudo saber, o vazio de valores, a fetichização disfarçada em funcionalidade e ciência, todos sintomas de degradação do homem estavam mais que manifestos no famoso american way of life. Somos (nós, filhos também legítimos desses infelizes auspícios) os inimigos da verdadeira cultura, nossas crenças nunca nos levará à Verdade, e dificulta todo o caminho que guie à verdadeira luz do saber.
Enquanto a mídia oferece uma quantidade infinita de informações, o indivíduo cede ou à apatia ou a crença enganosa de saber. E vive uma prisão a céu aberto. A cultura de massa destrói o espírito e condiciona o indivíduo aos valores do lucro, da competição e do sucesso. Enquanto as mercadorias melhoram, o progresso tecnológico se expande, o desenvolvimento capitalista chega ao apogeu, o homem se torna pior. A ideologia se tornou invisível na cega obediência ao desenvolvimento capitalista e à ciência, e nós seguimos aceitando tolerantemente, o intolerável. Adorno assegurou a sentença: o valor de troca permaneceria em todas as instâncias de nossas vidas, na equivalência entre o preço de um homem e outro, entre homens e coisas. A constante democracia se tornaria indiferença, e a indiferença neutralização moral. Vazio de valores. Só permaneceria o céu sobre nossas cabeças, e a lei moral? Já não é mais seu tempo.
É o tempo do vitorioso mundo democrático, onde toda comercialização (ops!) diálogo, alcança sua glória. Também a arte perdeu sua autonomia, ela, que para manter-se salva deveria permanecer separada da vida, desceu ao centro da barbárie e se tornou o principal fetiche dos homens, a grandiosa fonte de prazer, e o mais caro dos luxos.
Ah, Adorno, o profeta dos insatisfeitos, suas profecias contra o capitalismo e cultura de massa ainda pairam em nossas mentes, como um fantasma o qual receamos esquecer. Nele sim podemos falar de fanatismo, o resto são meros amadores. Ainda resta dúvidas de quem teria mais motivo para jogar aqueles aviõezinhos no WTC? Os culpados não estão nas ruínas do pobre Iraque. O espírito de Adorno está vivo, e o império que se cuide.
UMBERTO ECO
texto publicado no site EntreLivros

Busto de Platão, em Museu Capitolino de Roma
Vai ver que é porque as pessoas já não agüentam a TV-lixo, vai ver é porque no mundo acontece tanta coisa horrível que sentimos necessidade de alguns momentos de reflexão serena. Mas o fato é que estão se multiplicando os lugares e as oportunidades em que se torna a propor a filosofia ao grande público. Precisamente aquela filosofia do secundário, talvez num café em que as pessoas se reúnem aos domingos, como em Paris, ou por meio de vulgarizações de fácil leitura, às vezes fazendo acorrer um público inacreditavelmente amplo a salas onde filósofos profissionais discutem. Em tudo isso há um pouco de modismo e de simplificação midiática, claro, mas o sintoma não deve ser subestimado.
Por isso me ocorre fazer algumas propostas para os não-especialistas, e também para aqueles que não estudaram filosofia no secundário ou que foram ouvir as palestras de supostos filósofos e não entenderam nada. A todos eles, aconselho o caminho mais simples: ler o que escreveram os verdadeiros filósofos. Nem sempre a filosofia tem de parecer fácil, às vezes precisa ser difícil, mas não está escrito em lugar nenhum que é necessário falar difícil para filosofar. Na filosofia, a dificuldade da linguagem não é sinal nem de qualidade nem de perversidade, não raro depende do problema que está sendo abordado. Há obras-primas filosóficas que modificaram nosso modo de ser e de pensar e que são fatalmente difíceis, razão pela qual não convidarei ninguém que não seja especializado a ler Metafísica ou o Órganon de Aristóteles, a Crítica da razão pura, de Kant, ou aquele livro sublime, mas impraticável que é Ética, de Spinoza.
Mas há também filósofos que souberam falar de modo acessível, e freqüentemente são os mesmos que em outras obras falaram de modo inacessível. Por isso aconselho alguns livrinhos nos quais se vê como é possível filosofar sem usar muitos termos técnicos.
Comecemos por Platão. Gostaria de propor o Críton, com o qual aprendemos como e por que um cidadão não tem de escapar da observância às leis e, passando para Aristóteles, a Poética. Esqueçam que ela trata da tragédia clássica. Leiam-na como se nos descrevesse como se faz um romance policial ou um filme de bangue-bangue. Pois nosso homem já tinha entendido tudo aquilo que, mais de 2 mil anos depois, Hitchcock ou John Ford acabariam por compreender. Depois leiam o De Magistro, de Santo Agostinho. Livrinho genial por sua simplicidade e agudeza.
Mesmo sendo eu um cultor da Idade Média, acho difícil aconselhar um texto da grande era escolástica, porque poucas páginas, lidas fora de seu contexto sistemático, podem desencaminhar. Saltemos o fosso, o estritamente filosófico, e orientemos nosso leitor para o epistolário (o amoroso, é claro) de Abelardo e Heloísa. Não esperem muito sexo, mas vale a pena. Para o Renascimento, tentemos a Oração sobre a dignidade do homem, de Pico della Mirandola. Em seguida (mas só para antologia, e quantas há!), algumas passagens dos Ensaios, de Montaigne. São benéficos mesmo em doses homeopáticas.
Logo depois, o Discurso sobre o método, de Descartes, exemplar em sua clareza, seguido de uma antologia dos pensamentos de Pascal. E, por fim, um filósofo que escrevia como se estivesse conversando com os amigos, depois do jantar: culto e sensato, o John Locke do Ensaio sobre o intelecto humano. A obra toda é longa, mas sugeriria que nos limitássemos ao terceiro livro, aquele dedicado ao uso que fazemos das palavras. Como no caso de Aristóteles, leiam-no como se Locke nos falasse dos discursos de hoje, comparem suas observações com as primeiras páginas dos jornais e com os debates televisivos de nossos dias.
No tocante ao Iluminismo, eu ficaria por enquanto com o Cândido, de Voltaire; afinal, trata-se de um romancezinho, e muito agradável. O século XIX é um bicho feio, são livrões difíceis, mas só nós, os italianos, não consideramos o Zibaldone, de Leopardi, uma obra de alta filosofia. Também aí procedamos por saltos antológicos, uma pagininha ou duas à noite, antes de adormecer. Ou, então, lá vai uma proposta provocatória: já que Kant é, por definição, demasiado exigente, podemos flagrá-lo quando, para complementar o salário, dava aulas aos estudantes sobre temas que não eram da sua especialidade, e se mostrava divertido, bizarro, capaz de contar anedotas e expressar opiniões até paradoxais: ou seja, vamos ler suas lições de antropologia.
E depois? Depois, o Ecco! terminou, e deixo para lá os contemporâneos. A não ser que desejem, saltitando aqui e acolá, bebericar algumas das observações de Wittgenstein em (não se deixem assustar pelo título) Pesquisas filosóficas. De vez em quando dirão que era louco. Era louco, sim. Mas que louco!
Deixem aqui seus e-mails para que eu posso acionar voces no blog (como podem perceber, nao estou podendo usar sinais graficos).

Hoje em dia, existe em Salvador uma faixa de consumo muito bem definida que vai do forró “pé-de-serra” ao rock com batuque. As mesmas pessoas, com suas sandálias de couro, cabelos encaracolados e saias com motivos indianos, freqüentam os shows de bandas como Bando Virado no Mói de Coentro e Navio Negreiro. Talvez porque este tipo de som combine com o clima praiano de Salvador, com nossas matas, nossas “ervas”, ou talvez porque ele esteja mais de acordo com as “raízes” negras do “povo” baiano, pouco importa. Não estou aqui para fazer qualquer juízo de valor sobre estas pessoas ou estas bandas. O que importa que no centro deste cenário, está uma apropriação pop e festiva do reggae, guitarras com wah-wah que transformam o lamento da batida jamaicana em um bom motivo para encher shows de bandas como Mosiah, Diamba e Scambo.
De tão identificadas no gosto de seu público, essas três bandas parecem, às vezes, formar uma palavra só: eugostodemosiahdiambaescambo é uma resposta muito corriqueira. Não preciso nem dizer que não faço parte deste público, mas, dentre essas três bandas, sempre ouvi dizer que Scambo é a que mais se destaca. Exatamente por isso, hoje (20/09) aceitei um convite e fui, finalmente, ver um show deles no Teatro ACBEU. A apresentação fazia parte de um projeto chamado Terças Caymmi que, ao que pude entender, tinha algo a ver com o Troféu Caymmi. O convite era de graça por isso, caso não gostasse do show, não corria o risco de ficar muito zangado. Uma boa oportunidade de modificar, ou reafirmar, velhos preconceitos.
Depois de um interminável vídeo sobre o Troféu Caymmi, no qual podíamos ver depoimento de famosos como Ivete Sangalo e Daniela Mercury, comecei a entender porque o Scambo realmente merece algum destaque na cena “pop-roots” de Salvador. Depois passei a entender também porque a banda não consegue se descolar desta cena.Vi um show bem preparado, com uma boa iluminação e efeitos sonoros interessantes. Os arranjos muitas vezes conseguiam até sair do lugar comum, flertando com o new metal, o samba, o samba rock... As letras, apesar de tratarem de temas tão “inovadores” como a hipocrisia da sociedade, eram bem construídas e pareciam convincentes quando cantadas. Para a minha surpresa estava achando bom, mas tinha algo que me incomodava o tempo todo. Aqui e ali ainda podemos ouvir, furtiva nos arranjos, a velha guitarra com wah-wah que denunciava: o Scambo é uma banda reggae travestido de modernidade. Depois percebi que não era só a guitarra. Na verdade, a banda toda dava sinais de um caso grave esquizofrenia.
O repertório do show poderia ser dividido em dois grandes blocos, a água e o óleo. Se por um lado ouvíamos pop-reggaes típicos, como o mini-hit Sol, cantado em coro por todo o teatro, também era fácil perceber as tentativas da banda de superar esta barreira. Dos quatro covers que eles tocaram, um era de Chico Buarque (Geni e o zeppelin), um de Caetano Velloso (Tigresa), um de Gonzaguinha (Ocê e eu) e um de João do Vale (Carcará). Quatro canções que, somadas à insistência de recitar poesias no meio dos números musicais, configuram uma estratégia clara de legitimação para além dos becos esfumaçados do Pelourinho (qual o nome mesmo daquele beco que toca Reggae?). Tudo ocorria como se a banda não tivesse decidido se realmente toca reggae, agradando seu público, ou parte para algumas experimentações que, diga-se de passagem, me pareceram muito mais interessantes. Essa divergência não se resume ao repertório, mas parece estar encarnada nos mais diversos aspectos da banda. Isso pode ser facilmente notado no figurino: o macacão de mecânico azul marinho, típico de bandas de new metal como o Rage Against The Machine e o Slipknot, teve que sofrer “apropriações” para combinar com o estilo "menos arrojado" de parte da banda. A roupa do baixista, por exemplo, tinha as mangas cortadas e o acréscimo de um boné, um traje típico de jogador de futebol em momento de descanso. A partir de seu núcleo regueiro, a banda parece querer apontar, de maneira desordenada, para a conquista de um público mais amplo.
Os pontos altos do show coincidem exatamente com os momentos em que a banda consegue equilibrar essas duas tendências. Fábrica e Perdão são duas ótimas canções que, junto com a versão de Geny, valeram o esforço de me deslocar até o Corredor da Vitória. Destaque também para o rap de auto-ajuda bem ao estilo Pedro Bial (afinal filtro-solar também combina com as praias de Salvador). Não sei o nome da música e nem lembro se ela é realmente boa, mas é bem engraçada e parece que vai estar no novo álbum da banda. Por falar em álbuns, a Scambo já lançou dois e caminha para o terceiro. Em conversas depois do show, me disseram que a maior parte das canções de reggae são dos primeiros trabalhos e que, em seu terceiro álbum, a banda procura investir em “um estilo mais próprio”. Ao que parece, a banda caminharia para a superação da esquizofrenia. Mas, será que se eles completarem este movimento ainda conseguirão agradar seu público? Lembro-me de uma mulher muito engraçada que, sentada em minha frente, se balançava da mesma maneira, seja quando a banda tocava reggae ou quando ela se aproximava do rock, do samba, da música eletrônica.... Até o rap de auto-ajuda merecia braços balançantes, ao som de um Edson Gomes imaginário...
Este texto foi originalmente publicado no Petshop, um site de crítica cultural desenvolvido pelo pessoal do Petcom. Eu recomendo que vocês dêem uma passada lá.
Dos efeitos individuais aos efeitos sociais
Pouco a pouco, foi abandonada a pesquisa sobre os efeitos causados pelos meios de comunicação em uma determinada audiência. Esse tipo de abordagem procurava estabelecer os efeitos que as mensagens dos medias provocavam no público em uma situação comunicativa bem determinada e intencional.
Foram os investigadores funcionalistas que fizeram as primeiras críticas a esses estudos dos efeitos a curto prazo. Para eles, essa preocupação quantitativa levava a perder a referência com o contexto sociocultural e histórico no qual a comunicação de massa se desenvolvia.
Dos estudos sobre os efeitos de uma determinada mensagem no público, passa-se a uma preocupação com os efeitos decorrentes da existência dos meios de comunicação no tecido social.
Continuação e corte
A corrente funcionalista representa, ao mesmo tempo, uma continuação e uma ruptura com as abordagens anteriores – ligadas às pesquisas administrativas norte-americanas.
Por um lado deslocava a perspectiva, de uma situação comunicativa bem específica para o estudo do sistema social. A idéia é que os meios de comunicação interferem na dinâmica da cultura, do ambiente simbólico no qual os indivíduos vivem.
Por outro lado, a abordagem funcionalista não abre mão de muitos pressupostos metodológicos das pesquisas anteriores, principalmente no que diz respeito à abordagem empírica do tema.
O modelo de pesquisa empírica é um ponto que une a corrente funcionalista aos estudos administrativos das décadas anteriores e a diferencia das correntes européias (tal como a Teoria Crítica).
Funcionalismo, contornos gerais.
Termos básicos: Sistema, função, integração, equilíbrio.
A teoria funcionalista encara os meios de comunicação como um conjunto de sistemas sociais que funcionam dentro de um sistema social específico e, ao mesmo tempo, como um dos principais fatores de integração desta sociedade.
Nesta perspectiva, a questão de fundo deixa de ser os efeitos dos meios de comunicação em uma determinada audiência para se centrar nas funções exercidas pela comunicação de massa na sociedade.
Esses estudos estão interessados na relação da comunicação de massa com o equilíbrio da sociedade. Na participação dos meios de comunicação na dinâmica social.
Teoria estrutural-funcionalista
Talcott Parsons é o fundador do funcionalismo americano, com o livro A Estrutura da Ação Social.
O sistema social é entendido como um organismo (metáfora emprestada da biologia) em que cada uma de suas partes desempenha funções de integração e manutenção do sistema.
A sociedade é analisada como um sistema complexo que tende para a manutenção do equilíbrio (homeostase).
O organismo social é composto por subsistemas (política, economia, religião, meios de comunicação), estruturas parciais que desempenham determinadas funções.
As funções e disfunções
Na perspectiva funcionalista, as funções seriam o papel que determinados fenômenos cumprem dentro de um sistema para manter sua estabilidade.
O termo função é adaptado da biologia, onde é usado para descrever como os processos vitais contribuem para a manutenção do organismo, para indicar o modo como os processos sociais se desenvolvem para garantir o equilíbrio e a continuidade dos sistemas sociais.
Quando provocam instabilidade, estes fenômenos são chamados de disfunções. As disfunções são efeitos sociais não desejáveis.
Funções x efeitos
A questão ainda é as conseqüências dos meios de comunicação em uma determinada parcela da sociedade, mas agora questão é deslocada de uma perspectiva individual para uma visão social mais ampla.
Porém, o conceito de função implica no abandono da idéia de intencionalidade do processo comunicativo. É a primeira vez, nos estudos da Comunicação, que se deixa de falar dos objetivos do emissor para analisar o modo como eles se dão socialmente.
Tipos de Funções
Manifestas: são aquelas que são desejadas e receonhecidas.
Latentes: são aquelas que não são reconhecidas e nem desejadas
Algumas funções apontadas por Lazarsfeld e Merton
Atribuição de status: Essa função consiste em atribuir uma posição social a certas pessoas, grupos e tendências sociais.
A posição social das pessoas é favorecida quando repercute positivamente nos meios de comunicação. O que há é uma troca, os meios de comunicação atribuem determinado status a uma pessoa ou grupo e, ao mesmo tempo, utiliza-se deste status para se legitimar. Isso acontece, por exemplo, quando alguém é escolhido como fonte preferencial para determinado assunto. Exemplos: Dráuzio Varella nas matérias sobre saúde da TV Globo.
Execução das normas sociais: Os meios de comunicação tendem a reiterar as normas sociais ao exibirem à opinião pública os desvios em relação ao padrão geral. Determinados comportamentos que seriam tolerados na esfera privada são recharçados quando exibidos publicamente.
Disfunção narcotizante: Os meios de comunicação estariam sobrecarregando os indivíduos com informações, fazendo-s confundir “conhecer os problemas do momentos e fazer algo a seu respeito”. Os fluxos informativos que circulam livremente podem ameaçar a estrutura fundamental da sociedade.Esses meios estariam involuntariamente canalizando as energias dos homens para um conhecimento passivo, em lugar de uma participação ativa.

A Superação da Teoria Hipodérmica
Os primeiros sinais da necessidade de superação da Teoria Hipodérmica se deram no momento em que os pesquisadores da communication research (nome dado aos estudos norte-americanos que, desde o começo do século analisavam os efeitos da propaganda política e da publicidade na audiência)passaram a testar empiricamente seus principais pressupostos.Os resultudados destas pesquisas, que se deram no período entre a Segunda Guerra Mundial e a década de 50,começaram a contradizer as principais premissas da Teoria Hipodérmica.
“Os meios de comunicação são muito menos potentes do que se esperava... As pessoas não são persuadidas com facilidade a mudarem suas opiniões e comportamentos. A procura das fontes de resistência à mudança, assim como das fontes efetivas de influência quando as mudanças ocorrem, conduziu à descoberta do papel das relações interpessoais” (Katz)
A superação da Teoria Hipodérmica se deu, principalmente a partir de três tipos de pesquisas:
1.Pesquisas empírico-experimentais:Estudam fenômenos psicológicos individuais que afetam a comunicação.
2.Pesquisas de campo de cunho sociológico: Estudam o modo como as formações sociais nas quais os indivíduos estão imersos afetam a comunicação.
3.Funcionalismo: Estuda as relações entre os indivíduos, a sociedade e os meios de comunicação.
Dessa forma podemos notar um movimento que vai da onipotência dos meios de Comunicação para sua impotência em frente das diversas resistências do público (de caráter psicológico e sociológico)
Pesquisas empírico-experimentais
As teorias dos meios de comunicação resultantes dessas pesquisas, baseadas na psicologia social, consistem em uma revisão do processo comunicativo, entendido anteriormente como um processo mecanicista de estímulo e resposta. Tornam evidentes, pela primeira vez, a complexidade dos elementos que entram em jogo na relação entre emissor, mensagem e receptor.
A abordagem deixa de ser global para tratar especificamente de dois domínios: estudos sobre as características do destinatário, fatores relativos à audiência que interferem na obtenção do efeito e pesquisas sobre a obtenção de mensagens que possam ser mais persuasivas. O modelo matemático ainda persiste nesta perspectiva, apesar de ser complexificado.
Fatores relativos à audiência.
“Pressupor uma correspondência perfeita entre a natureza e a quantidade do material apresentado numa campanha informativa e sua absorção por parte do público, é uma perspectiva ingênua porque a natureza real e o grau de exposição do público ao material informativo são, em grande parte, determinados por certas características psicológicas da própria audiência” (Hyman – Sheatsley).
1.Interesse em obter informação: Há assuntos que simplesmente não interessa as pessoas, por elas não terem qualquer informação sobre eles. Quanto mais expostas as pessoas são a um determinado assunto, mais o seu interesse aumenta e, a medida em que o interesse aumenta as pessoas se sentem motivadas a saberem mais sobre o assunto.
2.Exposição seletiva (quem os meios atingem?): É certo que os meios de comunicação não atingem a todos da mesma maneira. Há alguns meios de comunicação que tem uma penetração maior em determinadas parcelas da população enquanto outros são mais eficazes em outras parcelas. Exemplos: Rádio AM e Internet.
Da mesma forma, os receptores escolhem os meios de comunicação que mais os convêm. Em uma pesquisa de Lazarsefeld sobre o pragrama Immigrants All – Americans All, que tinha como objetivo promover a integração nacional, descobriu que grande parte dos ouvintes eram os próprios imigrantes. Exemplo: Black TV. Qual revista vocês lêem? Geralmente pessoas com orientação política de esquerda escolhem ler a Caros Amigos enquanto outras preferem a Veja!.
A audiência tende a expor-se à informação à informação que está de acordo com suas atitudes e evitar as mensagens que estão desacordo com elas.
Assim, os meios de comunicação não modificariam os pontos de vista da audiência. Seu efeito seria, antes, de reforço de uma perspectiva já estabelecida.
3.Percepção seletica: “Os elementos do público não se expõem ao rádio, televisão ou ao jornal em um estado de nudez psicológica; pelo contrário, apresentam-se revestidos e protegidos por predisposições já existentes” (Klapper, 1963).
Ao nos depararmos com uma mensagem nos meios de comunicação, nós a interpretamos a partir de nossas próprias convicções. Podendo até mudar o sentido da mensagem
4.Memorização Seletiva: Do mesmo modo, a memorização das mensagens acontece por um mecanismo parecido. Aspectos que estão de acordo com nossas atitudes são mais facilmente memorizado que outros aspectos contrários às nossas expectativas.
Fatores relativos à mensagem.
Do mesmo modo, esses estudos procuraram estudar alguns modos de tornar a mensagem mais persuasiva às barreiras psicológicas dos receptores.
1.Credibilidade do comunicador: Alguns estudos procuraram interrogar-se se a reputação da fonte é um fator que influência na mudança de opiniões. Estes estudos constituíam-se de apresentar a mesma mensagem veiculada ora com um emissor confiável, ora com um não confiável, para depois medir o grau de aceitação das duas mensagens.
Os resultados mais comuns foram que o material absorvido através de uma fonte confiável modificaram mais as opiniões dos receptores. No caso dos emissores não confiáveis, haveria uma apreensão do conteúdo, mas não sua aceitação. Exemplos diversos: Jornal Sensacionalista.
2.Ordem da argumentação: Essas pesquisas tinham por objetivo estabelecer se, em uma mensagem que argumente contra e a favor de determinado tema, eram mais eficazes os argumentos mostrados antes ou depois.
Os resultados são que, para os receptores com maior conhecimento do tema, as argumentações posteriores surtiam mais efeito e para os com menor conhecimento as primeira surtiam mais.
3.Integralidade das argumentações: Que tipo de mensagem surte mais efeito, as que apresentam os dois lados da questão ou as que apresentam apenas um lado?
4.Explicitação das conclusões: Pesquisas que procuravam saber se uma mensagem que já fornece as conclusões acerca do tema é mais persuasiva que uma que deixe essas conclusões para a audiência.
Quanto maior for o envolvimento do receptor com o tema, mais útil é deixar as conclusões implícitas. Quanto menor o envolvimento melhor explicitar as conclusões.
Dessa forma, a eficácia da estrutura das mensagens variam de acordo com certas características dos destinatários.
Se comparada à Teoria Hipodérmica, esses estudos redimensionam a capacidade de persuasão dos meios de comunicação para manipular o público.Mostram a complexidade dos fatores que intervêm para provocar o efeito. Apesar disso, nesta perspectiva os meios de comunicação ainda podem exercer influência e persuadir.
Pesquisas de campo de inspiração sociológica
A principal característica desses estudos está em associar os processos de comunicação de massa às características do contexto social no qual eles estão inseridos. Para entender a comunicação de massa é necessário centrar a atenção no âmbito social mais vasto onde essas comunicações operam e fazem parte. Mais do que o conteúdo que difundem, a influência dos meios de comunicação depende do sistema social que os rodeia. Assim, a teoria dos efeitos limitados deixa de salientar a relação causal direta para insistir em um processo indireto de influência em que as dinâmicas sociais interferem nos processos comunicativos.
“A abordagem sociológica faz a sua primeira contribuição ao modelo (E -> R), levando em conta as conexões entre o receptor e os muitos grupos primários com os quais ele interege, forma seus valores, sanções e comportamentos e, concomitantemente, influencia o seu papel como receptor em realção so emissor” (Riley & Riley).
Um estudo importante de Lazarsfeld, Berelson e Gaudet (1944) chamado A opção das pessoas: Como o eleitor elabora suas próprias decisões numa campanha presidencial.
Esse estudo tinha como objetivo individualizar as causas das atitudes políticas na campanha presidencial americana de 1940, numa comunidade do estado de Ohio (Erie County). A investigação foi organizada a partir de problemas como a posição socioeconômica, religião, grupo etário e outros fatores sociológicos.
Esse estudo é importante por salientar dois elementos: os lideres de opinião e o fluxo de comnicação em dois níveis (Two Step Flow).
Os líderes de opinião: Os lideres de opinião seriam indivíduos muito envolvidos e interessados no tema e dotados de maior conhecimento sobre ele.
Estes líderes representariam a parcela da opinião pública que procura influenciar o resto do eleitorado e demonstra maior capacidade de reação aos acontecimentos da campanha eleitora.A comunicação fluiria assim: dos meios de comunicação aos líderes de opinião e destes ao resto do eleitorado.
Mais tarde, nas pesquisas de Merton, os lideres de opinião foram divididos em duas categorias: líder de opinião local e cosmopolita.
Líder Local: Teria vivido constantemente na comunidade. Um tipo de influência que se baseia mais no conhecimento dos outros que em competências específicas. Ele exerce influências em diversas ares temáticas. Exemplos de líderes locais: O padre em uma cidade pequena.
Líder Cosmopolita: Viveu grande parte de sua vida fora onde chegou. Dotado de competências específicas. Exemplos: Comentaristas políticos na TV seriam uma apropriação dos meios do líder cosmopolita.
Two Step Flow: O fluxo de dois níveis está intimamente ligado à influência dos líderes de opinião no grupo.

Depois dos pedidos de algumas pessoas, resolvi colocar no blog alguns resumos dos assuntos que eu fiz para facilitar as aulas. Aí vão.
O modelo matemático da Comunicação surge na segunda metade da década de 40 a partir das pesquisas, derivadas da Teoria da Informação, de Claude Shanon e Warren Weaver. Dessa forma, a Teoria Matemática da Comunicação se preocupa basicamente com aspectos técnicos do processo comunicativo. Dentre suas primeiras preocuações estão a quantificação e diminuição dos custos da transmissão de uma mensagem de um ponto a outro.
A comunicação seria uma cadeia formada por uma fonte de emissão, um emissor (ou codificador, que transforma a mensagem em um sinal transmissível), um canal (o meio utilizado para o transporte da mensagem), um receptor (ou decodificador, que reconstitui a mensagem at partir dos sinais) e o destinatário.

Exemplo, um telejornal: Os acontecimentos do dia seriam as fontes de informação; o jornalista, câmera, editor, os emissores; o sinal televisivo o canal; o aparelho de Tv o receptor e o telespectador o destinatário.
As principais questões deste tipo de estudo dizem respeito à quantidade de informação, capacidade do canal e as características de um processo de codificação eficaz à quantidade de informação transmitida.
Informação: Em um primeiro momento, na Teoria Matemática, informação não deve ser confundida com significação, aqui esta palavra diz respeito à quantidade de dados que são transmitidos pelo canal (quantidade de Bits).
Paradigma de Lasswell
Em sintonia com a Teoria Matemática da Comunicação, Harold Lasswell propunha descrever o ato comunicativo a partir das respostas a algumas perguntas. A partir dessas perguntas poderia-se estabelecer os temas da pesquisa em Comunicação.
Perguntas
Quem? (Emissor) (Estudo dos emissores)
Diz o que? (Mensagem) (Análise dos conteúdos das mensagens)
Através de que canal? (Canal) (Análise técnica dos meios)
Com que efeito? (Efeito) (Análise das audiências e dos efeitos)
Características
Assimetria: Nesta perspectiva é sempre o emissor ativo que produz o estímulo. Aos destinatários, tidos como passivos, resta ser atingido pelo estímulo e reagir a ele.
Intencionalidade: A comunicação é intencional e tem como objetivo provocar algum efeito. O efeito está intimamente ligado ao conteúdo da mensagem – daí o fato de que grande parte das pesquisas que se baseiam neste modelo se centrem na análise de conteúdo.
Isolamento dos papéis: Os papéis de emissor e receptor aparecem isolados, independentes das relações sociais em que os processos comunicativos se realizam.
Permanência da Teoria Matemática: A Teoria Matemática possibilitou uma descrição duradoura da comunicação. Ainda hoje, seja para fazer críticas ou acréscimos, quando falamos em Comunicação sempre partimos da Teoria Matemática.
Teorias da Comunicação de Mauro Wolf

Preço = R$ 48,00
Este livro é bem interessante e apresenta uma análise das principais Teorias da Comunicação, com maior ênfase nas pesquisas norte-americanas e na Teoria Crítica. É bem aprofundado, mas talvez seja um pouco complexo para a leitura de alunos do primeiro periodo. Mas acho que vale a pena tentar.
Efeito e Recepção de Itânia Gomes

Preço = R$ 38 na versão impressa e R$ 19 na versão digital.
Publicação da tese de doutorado de Itânia Gomes, professora da Facom. Toda a primeira parte do livro se dedica a uma revisão das teorias da comunicação. Fácil, didático e completo. Antes que perguntem, não tou ganhando nada com a propaganda.
Alguns textos para ler:
FERREIRA, Giovandro Marcus. As origens recentes: os meios de comunicação pelo viés do paradigma da sociedade de massa, In HOHLFELDT, Antônio; MARTINO, Luiz & FRANÇA, Vera. Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis, Editora Vozes, 2001. p.99-116.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos Meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia, Rio de Janeiro: EDUFRJ, 2001.

A Idade da Questão
A idéia de uma sociedade de massa é bem mais velha do que costumas dizer os manuaisde Teorias da Comunicação. Ao colocarem a tecnologia e, mais especificamente, os meios de comunicação de massa como causa principal das modificações sociais, estes estudos acabam identificando o surgimento das teorias da sociedade de massa entre os anos 30 e 40. Porém, nesta época o estudo da sociedade de massa já completava mais de 100 anos, é isso que nos mostra o texto de Giovandro Ferreira e Martín-Barbero.
Como nos mostrou Renato Ortiz, o nascimento da sociedade de massa data da Revolução Industrial, da popularização da imprensa e do surgimento dos meios de transportes modernos – como o trem. De fato, a imprensa é o primeiro meio de Comunicação de Massa e desempenhou um papel importante na formação de nossa sociedade.
No século XIX ocorreram importantes mudanças sociais principalmente nos Estados Unidos e na Europa, como foi tratado por Ortiz. A concentração populacional nos espaços, a urbanização e a industrialização levaram ao questionamento da massificação. Assim, a Sociedade de Massa se tornou objeto de reflexão das ciências sociais e, em especial, da sociologia. Mais ou menos o que acontece hoje com a cibercultura.
Apesar da presença da reflexão sobre a massa estar presente no pensamento de esquerda, sob o rótulo de “povo” ou “proletariado”, grande parte desta reflexão está atrelada a um pessimismo frente às mudanças sociais.
Para Barbero, “o acionamento durante o século XIX da teoria da sociedade de massa é o de um movimento que vai do medo à decepção e daí ao pessimismo, mas conservando o asco” (Martin-Barbero, 2001 p.43).
Seu ponto de partida está na reflexão de liberais Ingleses e franceses frente ao medo das perigosas massas que se transformaram as classes trabalhadoras. Vale lembrar que os primeiros trabalhos nessas linhas aparecem em um período imediatamente posterior ao terror da Revolução Francesa, em meio às guerras napoleônicas e a constante ameaça de revolução que se afirmava – Primavera dos povos (1848), ou mesmo a Revolução Russa (1917).
“A teoria da sociedade de massa tem fontes diferentes e uma paternidade mista composta de liberais descontentes e conservadores nostálgicos, além de alguns socialistas desiludidos e uns tantos reacionários abertos”.
O estudo da sociedade de massa.
Tanto Giovandro Ferreira quanto Martin-Barbero citam o trabalho de alguns sociólogos como o começo do estudo da sociedade de massa: Ferdinand Toennies, Max Weber, Émile Durkheim, Karl Marx, Alex Tocqueville. Não é necessário que vocês decorem o pensamento de cada um, é mais importante que se perceba o modo como eles caracterizam a sociedade de massa. Apesar de tratar de temas diferentes (Marx e Durkheim estão mais preocupados com o trabalho, já Tocqueville com a política e assim por diante), seus pensamentos têm, de fato, muitos pontos em comum.
Comunidade)(Gemeinschaft)
Autoridade Tradicional
Sentimento de união recíproca
Solidariedade Mecânica
Sociedade (Geselschaft)
Autoridade Formal (mecanismos impessoais de controle)
Isolamento, atomismo (declínio dos grupos primários, como a família)
Solidariedade Orgânica
Características da sociedade de massa.
Especialização - A especialização teria como finalidade a incrementação da produtividade e atingiria o gosto (música para jovens), os papéis sociais (exigência de diplima).
A especialização leva ao Isolamento – que não se reconhecem como parte integrante de um todo.
Enfraquecimento dos laços comunitários
Atomismo - Os indivíduos se vêem ilhados, alienados do convívio social.
No final das contas, é dada a todas essas características a conseqüência do enfraquecimento dos laços tradicionais e o estabelecimento de um tipo de indivíduo isolado, sujeito à manipulação (isso que vai legitimar os estudos acerca dos Efeitos Ilimitados)
“Com o nome de massa se designa aí pela primeira vez um movimento que afeta a estrutura profunda da sociedade, ao mesmo tempo em que é o nome com que se mistifica a existência conflitiva da classe que ameaça aquela ordem” (Barbero sobre Tocqueville)
Psicologia das massas
Da crítica do medo da desintegração social, chega-se a outras críticas da sociologia do século XIX: declíneo dos grupos primários (família, grupo de vizinhos, associações esportivas...), burocratização crescente, igualdade e insegurança. A partir daí chega-se a uma ontologia sobre o homem que vive na massa e da cultura que o influência e é também fomentada por ele: a cultura de massa.
Primeiro se questionou a presença da massa na sociedade do século XIX, depois à psicologia dos homens que fazem parte dessa massa, já no século XX.
Percebam como chegamos cada vez mais perto de uma Teoria da Comunicação, que será finalmente construída em meados da década de 30.
Gustave Le Bon foi um dos primeiros a ter a multidão, a massa como objeto de suas pesquisas. Seu livro A psicologia das massas foi o primeiro intento “científico” para pensar a irracionalidade das massas.
A final de contas, o que é massa? Para Le Bon, a massa é um fenômeno psicológico pelo qual os indivíduos, por mais diferentes que seja seu modo de vida, suas ocupações ou seu caráter, estão dotados de uma alma coletiva que lhes faz comportar-se de maneira totalmente distinta de ele faria isoladamente.
Para ele, a multidão absorve o indivíduo mais ou menos como uma forma de contaminação mental. Um estado primitivo no qual as inibições morais desaparecem e a afetividade e o instinto passam a dominar.
Para Le Bon, a massa é uma organização onde os indivíduos estão submetido a uma alma coletiva (perdem sua racionalidade e individualidade). A multidão, como ele descreve, é feminina, impulsiva, móvel, dominada por uma mentalidade “mágica”. Ela é influenciável, seduzida por sentimentos simples e exagerados, tem a moral degradada e é intolerante e autoritária.
Esse tipo de pensamento se propõe estudar o modo como se produz a sugestionabilidade da massa, para, assim, poder operar sobre ela.
Já Ortega Y Gasset (que é uma pessoa só) se concentrou no estudo do homem que faz parte dessa massa. Pra ele o homem-massa se encontra nas diversas classes sociais e é um indivíduo abrutalhado, violento, promotor do caos social.
A massa é descrita como sendo formada por indivíduos atomizados, reclusos nos seus espaços privados.
Professor,
Venho através desta mensagem desmistificar este seu "achamento" de que apenas o senhor, juntamente com Danilo, são os únicos a realmente participarem deste "blog" (não estou considerando este "post" uma participação efetiva, dígamos assim...). Eu juntamente com outros alunos, acredito, participamos deste blog, EFETIVAMENTE, lendo e absorvendo (na verdade tentando) os conteúdos que por aqui são gentilmente nos ofertados.
Quanto à questão da sua avaliação fazer a conexão do contéudo que estamos aprendendo ao nosso cotidiano acho que será uma experiência interessante...(apesar de não saber se estou preparado.)
Saudações,
Paulo Trocoli
Obs: Gostaria de solicitar o nome de UM livro que os senhores acreditam que deva ser adquirido.

Há teorias que já nasceram fadadas ao esquecimento, mas outras grudam que nem chiclete na cabeça de pesquisadores, professores e intelectuais de todo mundo - um exemplo perfeito dessa ultima categoria é Teoria Matemática da Comunicação. Adaptada da teoria da informação nos anos 30, esse modelo se tornou, por muito tempo, unanimidade nos estudos de comunicação, tanto para apocalípticos quanto para integrados. Até quando alguém pretendia negá-la, não é que a danada volta do túmulo renovada e com novos apetrechos - ruído, canal, feedback entre outros. Muita matemática e pouca comunicação.
Tal sucesso tem seus motivos. Trata-se de uma ferramenta simples, que permite descrever o processo comunicativo de maneira funcional e facilmente analisável. A comunicação é consciente, racional, unilateral e linear com uma divisão clara de papeis entre emissor e um pólo receptor - o que o emissor quer é codificar e transmitir a mensagem e o receptor só deseja decodificar e entender tudo direitinho. Funciona muito bem na Teoria da Informação, mas seu uso para descrever a comunicação humana traz sérios problemas.
O emissor só emite e o receptor só recebe. Por acaso existe uma raça de emissores que nasce com uma boca gigantesca e nenhum ouvido ou receptores orelhudos e sem boca? Também não creio que o objetivo principal da maioria dos atos comunicativos seja passar uma mensagem (lembrem do texto de Bougnoux). Existem muitas outras funções da comunicação - como transmitir afetividade ou manter uma amizade. Como pesquisa de campo, tentem observar um casal de namorados conversando. Acreditem, somos capazes de passar horas no telefone sem transmitir um único enunciado racional. Sim, mas dá pra ser de outro jeito? Existe vida na comunicação sem a Teoria Matemática? Talvez. Vamos estudar algumas dessas alternativas no decorrer do curso.
Alguns Blogs com temáticas semelhantes a este:
Indústrias Culturais: Pesquisas e leituras no domínio das indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, vídeo, videojogos, música, livros e centros comerciais).
Site das Teorias: Blog criado para alojar os textos dos alunos da disciplina de Teorias da Comunicação, do curso de Comunicação Social e Cultural da Universidade Católica Portuguesa.
Teorias da Comunicação: Outro Blog de disciplina, tem que ser rápido e clicar em "stop" porque ele te direciona pra outro site.