
texto publicado no zine peteleco
Há quem acredite em versões muito imediatas sobre a causa do histórico atentado de 11 setembro. Iraquianos, muçulmanos, grupos terroristas internacionais e o pobre Bin Laden não passam de bodes expiatórios. Ou manipulação política do mega império norte-americano ou, simplesmente, ignorância dos inumeráveis analistas políticos e estrategistas de guerra que permearam as tvs durante e depois do ocorrido. A verdadeira causa é tão óbvia que ninguém notou – a velha história da “Carta de Goovre”, sábio Poe.
Em 11 de setembro nasceu Theodor Wiesengrund Adorno. Suas pregações contra a irracionalidade e barbárie da vida contemporânea correram todo Ocidente: para ele a decadência da humanidade encontrou seu auge na sociedade capitalista (e esta, como sabemos, encontrou o seu no E$tados Unidos da América). O pseudo saber, o vazio de valores, a fetichização disfarçada em funcionalidade e ciência, todos sintomas de degradação do homem estavam mais que manifestos no famoso american way of life. Somos (nós, filhos também legítimos desses infelizes auspícios) os inimigos da verdadeira cultura, nossas crenças nunca nos levará à Verdade, e dificulta todo o caminho que guie à verdadeira luz do saber.
Enquanto a mídia oferece uma quantidade infinita de informações, o indivíduo cede ou à apatia ou a crença enganosa de saber. E vive uma prisão a céu aberto. A cultura de massa destrói o espírito e condiciona o indivíduo aos valores do lucro, da competição e do sucesso. Enquanto as mercadorias melhoram, o progresso tecnológico se expande, o desenvolvimento capitalista chega ao apogeu, o homem se torna pior. A ideologia se tornou invisível na cega obediência ao desenvolvimento capitalista e à ciência, e nós seguimos aceitando tolerantemente, o intolerável. Adorno assegurou a sentença: o valor de troca permaneceria em todas as instâncias de nossas vidas, na equivalência entre o preço de um homem e outro, entre homens e coisas. A constante democracia se tornaria indiferença, e a indiferença neutralização moral. Vazio de valores. Só permaneceria o céu sobre nossas cabeças, e a lei moral? Já não é mais seu tempo.
É o tempo do vitorioso mundo democrático, onde toda comercialização (ops!) diálogo, alcança sua glória. Também a arte perdeu sua autonomia, ela, que para manter-se salva deveria permanecer separada da vida, desceu ao centro da barbárie e se tornou o principal fetiche dos homens, a grandiosa fonte de prazer, e o mais caro dos luxos.
Ah, Adorno, o profeta dos insatisfeitos, suas profecias contra o capitalismo e cultura de massa ainda pairam em nossas mentes, como um fantasma o qual receamos esquecer. Nele sim podemos falar de fanatismo, o resto são meros amadores. Ainda resta dúvidas de quem teria mais motivo para jogar aqueles aviõezinhos no WTC? Os culpados não estão nas ruínas do pobre Iraque. O espírito de Adorno está vivo, e o império que se cuide.