Alguns textos para ler:
FERREIRA, Giovandro Marcus. As origens recentes: os meios de comunicação pelo viés do paradigma da sociedade de massa, In HOHLFELDT, Antônio; MARTINO, Luiz & FRANÇA, Vera. Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis, Editora Vozes, 2001. p.99-116.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos Meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia, Rio de Janeiro: EDUFRJ, 2001.

A Idade da Questão
A idéia de uma sociedade de massa é bem mais velha do que costumas dizer os manuaisde Teorias da Comunicação. Ao colocarem a tecnologia e, mais especificamente, os meios de comunicação de massa como causa principal das modificações sociais, estes estudos acabam identificando o surgimento das teorias da sociedade de massa entre os anos 30 e 40. Porém, nesta época o estudo da sociedade de massa já completava mais de 100 anos, é isso que nos mostra o texto de Giovandro Ferreira e Martín-Barbero.
Como nos mostrou Renato Ortiz, o nascimento da sociedade de massa data da Revolução Industrial, da popularização da imprensa e do surgimento dos meios de transportes modernos – como o trem. De fato, a imprensa é o primeiro meio de Comunicação de Massa e desempenhou um papel importante na formação de nossa sociedade.
No século XIX ocorreram importantes mudanças sociais principalmente nos Estados Unidos e na Europa, como foi tratado por Ortiz. A concentração populacional nos espaços, a urbanização e a industrialização levaram ao questionamento da massificação. Assim, a Sociedade de Massa se tornou objeto de reflexão das ciências sociais e, em especial, da sociologia. Mais ou menos o que acontece hoje com a cibercultura.
Apesar da presença da reflexão sobre a massa estar presente no pensamento de esquerda, sob o rótulo de “povo” ou “proletariado”, grande parte desta reflexão está atrelada a um pessimismo frente às mudanças sociais.
Para Barbero, “o acionamento durante o século XIX da teoria da sociedade de massa é o de um movimento que vai do medo à decepção e daí ao pessimismo, mas conservando o asco” (Martin-Barbero, 2001 p.43).
Seu ponto de partida está na reflexão de liberais Ingleses e franceses frente ao medo das perigosas massas que se transformaram as classes trabalhadoras. Vale lembrar que os primeiros trabalhos nessas linhas aparecem em um período imediatamente posterior ao terror da Revolução Francesa, em meio às guerras napoleônicas e a constante ameaça de revolução que se afirmava – Primavera dos povos (1848), ou mesmo a Revolução Russa (1917).
“A teoria da sociedade de massa tem fontes diferentes e uma paternidade mista composta de liberais descontentes e conservadores nostálgicos, além de alguns socialistas desiludidos e uns tantos reacionários abertos”.
O estudo da sociedade de massa.
Tanto Giovandro Ferreira quanto Martin-Barbero citam o trabalho de alguns sociólogos como o começo do estudo da sociedade de massa: Ferdinand Toennies, Max Weber, Émile Durkheim, Karl Marx, Alex Tocqueville. Não é necessário que vocês decorem o pensamento de cada um, é mais importante que se perceba o modo como eles caracterizam a sociedade de massa. Apesar de tratar de temas diferentes (Marx e Durkheim estão mais preocupados com o trabalho, já Tocqueville com a política e assim por diante), seus pensamentos têm, de fato, muitos pontos em comum.
Comunidade)(Gemeinschaft)
Autoridade Tradicional
Sentimento de união recíproca
Solidariedade Mecânica
Sociedade (Geselschaft)
Autoridade Formal (mecanismos impessoais de controle)
Isolamento, atomismo (declínio dos grupos primários, como a família)
Solidariedade Orgânica
Características da sociedade de massa.
Especialização - A especialização teria como finalidade a incrementação da produtividade e atingiria o gosto (música para jovens), os papéis sociais (exigência de diplima).
A especialização leva ao Isolamento – que não se reconhecem como parte integrante de um todo.
Enfraquecimento dos laços comunitários
Atomismo - Os indivíduos se vêem ilhados, alienados do convívio social.
No final das contas, é dada a todas essas características a conseqüência do enfraquecimento dos laços tradicionais e o estabelecimento de um tipo de indivíduo isolado, sujeito à manipulação (isso que vai legitimar os estudos acerca dos Efeitos Ilimitados)
“Com o nome de massa se designa aí pela primeira vez um movimento que afeta a estrutura profunda da sociedade, ao mesmo tempo em que é o nome com que se mistifica a existência conflitiva da classe que ameaça aquela ordem” (Barbero sobre Tocqueville)
Psicologia das massas
Da crítica do medo da desintegração social, chega-se a outras críticas da sociologia do século XIX: declíneo dos grupos primários (família, grupo de vizinhos, associações esportivas...), burocratização crescente, igualdade e insegurança. A partir daí chega-se a uma ontologia sobre o homem que vive na massa e da cultura que o influência e é também fomentada por ele: a cultura de massa.
Primeiro se questionou a presença da massa na sociedade do século XIX, depois à psicologia dos homens que fazem parte dessa massa, já no século XX.
Percebam como chegamos cada vez mais perto de uma Teoria da Comunicação, que será finalmente construída em meados da década de 30.
Gustave Le Bon foi um dos primeiros a ter a multidão, a massa como objeto de suas pesquisas. Seu livro A psicologia das massas foi o primeiro intento “científico” para pensar a irracionalidade das massas.
A final de contas, o que é massa? Para Le Bon, a massa é um fenômeno psicológico pelo qual os indivíduos, por mais diferentes que seja seu modo de vida, suas ocupações ou seu caráter, estão dotados de uma alma coletiva que lhes faz comportar-se de maneira totalmente distinta de ele faria isoladamente.
Para ele, a multidão absorve o indivíduo mais ou menos como uma forma de contaminação mental. Um estado primitivo no qual as inibições morais desaparecem e a afetividade e o instinto passam a dominar.
Para Le Bon, a massa é uma organização onde os indivíduos estão submetido a uma alma coletiva (perdem sua racionalidade e individualidade). A multidão, como ele descreve, é feminina, impulsiva, móvel, dominada por uma mentalidade “mágica”. Ela é influenciável, seduzida por sentimentos simples e exagerados, tem a moral degradada e é intolerante e autoritária.
Esse tipo de pensamento se propõe estudar o modo como se produz a sugestionabilidade da massa, para, assim, poder operar sobre ela.
Já Ortega Y Gasset (que é uma pessoa só) se concentrou no estudo do homem que faz parte dessa massa. Pra ele o homem-massa se encontra nas diversas classes sociais e é um indivíduo abrutalhado, violento, promotor do caos social.
A massa é descrita como sendo formada por indivíduos atomizados, reclusos nos seus espaços privados.