E os Ciborgues, contam carneirinhos elétricos?
Danilo Fraga
Anakin Skywalker tem seu corpo mutilado reconstituído por uma armadura mecânica. Alguns séculos atrás, um monstro criado a partir de cadáveres, alguns relâmpagos e um maquinário “ultra-moderno” já atormentava a vida do pobre Doutor Frankenstein. No Japão, os animes e mangas colocam em questão, a todo o momento, as fronteiras entre o orgânico e o técnico.
De fato, estes delírios febris de ficção científica sempre fizeram parte da imaginação humana. Pelo menos desde o Iluminismo, nossas narrativas estão cheias de seres artificiais que ganham vida através técnica. Porém, com os avanços da medicina, da robótica e das pesquisas sobre inteligência artificial, o que antes estava confortavelmente confinado ao plano dos sonhos se aproxima cada vez mais perigosamente da realidade.
Vivemos em um mundo em que um coração artificial é uma realidade plausível, existem homens com chips implantados no corpo e até animais têm seu código genético alterado só para evitar que os donos sintam alergia a seu pêlo. De um lado, a mecanização do corpo humano. De outro, a humanização das máquinas. A distinção entre o natural e o artificial fica cada vez mais turvas.
Você usa óculos? Tem piercings por todo corpo? Marca passo? Então, desculpe-me a revelação abrupta, mas você também é um ciborgue. Pelo menos é o que pensa a socióloga Donna Haraway, que publicou em 1985 o Manifesto em favor do ciborgue. “Somos todos quimeras, híbridos de máquina e organismo, somos, em suma, ciborgues”, afirma a socióloga que ainda diz mais, “eu também sou um ciborgue”. No manifesto o ciborgue é um mito político e feminista, a dissolução das dicotomias entre operário e máquina, entre homem e mulher. “Estamos falando de formas inteiramente novas de subjetividade. Trata-se de uma nova carne”. Também para o jornalista e escritor de ficção científica, Hari Kunzru “os ciborgues reais têm estado entre nós por quase cinqüenta anos”.
Mas, não se assuste. Ainda existe uma distância confortável entre nós Aproveite sua nova condição. Conecte-se à Internet. Plugue-se a uma tomada. Fique ligado.
Para saber mais:
Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Donna Haraway e Hari Kunzru, tradução e organização de Tomaz Tadeu da Silva. Editora Autêntica. R$ 19,00.