CCCS: O caminho rumo à recepção
É certo que desde sua infância, os estudos culturais ingleses já demonstravam uma vocação para o estudo da recepção. Em The uses of literacy, um dos textos fundadores da corrente, Hoggart analisa como se dá a relaçao entre a classe operária inglesa e a comunicação de massa e, se não faz exatamente pesquisa de campo, chega perto disso quando baliza suas suposições em sua vivência, e da vivência de sua família como um exemplo da classe operária. Esse livro foi importante na formulação de pressupostos bastante caros aos culturalistas: pensar a atividade da audiência e a cultura em sua relação com a sociedade. Entretanto, entre essa abordagem inicial e as posteriores pesquisas de recepção realizadas pelos estudos culturais, há algumas diferênças marcantes.
É a preocupação dos estudos culturais, herdada de uma tradição marxista, com a relação entre linguagem e ideologia que leva os estudos culturais ao interesse pelo receptor. Da preocupação inicial de produzir uma ação política, preocupação esta que permeia toda história dos estudos culturais britânicos, para a descoberta que a ideologia tem uma existência material (Althusser, Bakhtin), do estruturalismo de Barthes e até a análise da recepção foi um pulo. O que realmente está em jogo nesse caminho é a descoberta que a textualidade é um campo de luta política. De início, o interesse estava em compreender como dos textos da cultura representam a ideologia dominante e entender como utilizar a textualidade para contruir uma nova hegemonia. Entretanto, ao pressupor a recepção como ativa, como um lugar de construção de sentido, os culturalistas perceberam que a verdadeira luta é travada no campo da recepção.
Para entender o sentido de uma mensagem é necessário considerá-la enquanto interpretada em uma dada situação social, histórica e antropológica. O receptor não são sujeitos textuais, mas sujeitos sociais, eles têm uma história, vivem em uma formação social particular. Para os estudos culturais, a audiência é sempre ativa e o signo (o produto) midiático sempre polissêmico (aberto a multiplas interpretações), o que possibilita multiplas interpretações do mesmo evento. É exatamente nessa multipla possibilidade de interpretações que os estudos culturais baseiam seu projeto político. Se é possível que se interprete o produtos de maneira diferente do desejado, pela ideologia dominante, resta aos intelectuais definir um projeto pedagógico que possibilite o homem comum ter competência para enxergar criticamente a ideologia estampada nos produtos consumidos.
Os estudos de recepção abrigam a consideração inicial de Stuart Hall (a figura da foto) e Morley acerca da decodificação das mensagens, os estudos sobre o consumo cultural, investigações de campo sobro o modo como os receptores produzem sentido a partir dos textos midiáticos, além da etnografia da audiência.