Danilo Fraga




A primeira fase das investigações sobre os meios de comunicação de massa coincide, historicamente, com o período das duas Grandes Guerras Mundiais e com a difusão em larga escala dos meios de comunicação - filhos da idustrialização pelo qual a Europa passava desde o século XIX. Classificadossob o título de Efeitos Ilimitados, esses estudos apareceram, basicamente, como reação a estes dois ultimos fenômenos, relativamente novos para a época: a industrialização e os meios de comunicação. Procuravam responder uma pergunta simples: que efeitos têm os meios de comunicação em uma sociedade de massa? A primeira resposta parecia ser “todos possíveis”.
Por trás deste nome engraçado está a crença de que, como uma substância injetada na corrente sanguínea de uma pessoa, os meios de comunicação atingem todos os indivíduos de maneira instantânea, eficaz e inevitável. Assim: você está em casa vendo TV sozinho, quando em um comercial alguém diz “compre Batom, compre Batom”, você desliga a TV e vai imediatamente comprar o tal Batom. Quando sai de casa vê que todos os seus vizinhos também saíram para fazer o mesmo. Claro que isso é um exagero, mas para esses primeiros teóricos os meios de comunicação funcionariam mais ou menos assim. Não que eles sejam doidos nem nada, alguns dos fenômenos mediáticos do começo do século chagavam mesmo a insinuar o poder implacável dos meios de comunicação. Entre eles estão a utilização do rádio pelos regimes fascistas e nazistas (como Hittler conseguiu convencer um país inteiro a matar todos os judeus?) e a transmissão radiofônica de Orson Welles. Também para chegar a esta conclusão estes pesquisadores partiram de premissas presentes em algumas pesquisas do final do século XIX e começo do século XX – principalmente na sociologia e a psicologia behaviorista.
Como Giovandro Ferreira mostrou em seu texto “As Origens Recentes: os meios de comunicação pelo viés do paradigma de massa”, a sociologia do século XIX estava muito interessada em pesquisar os efeitos do processo de massificação da sociedade. A transição da sociedade antiga para a moderna se configurava basicamente em três características: a industrialização, a grande concentração populacional nas grandes cidades e a divisão de trabalho. Diversos sociólogos se debruçaram sobre o tema, ora com ênfase em alguns, ora em outros destes três aspectos – Karl Marx, Émile Durkheim, Ferdinand Tönnies, Max Weber e Alex de Toqueville são alguns deles. Não vou entrar em detalhes sobre seus pensamentos, mas, em linhas gerais, todos eles chegaram a conclusões parecidas: na sociedade moderna o homem perde os laços orgânicos da Igreja, da família, da comunidade e se vê isolado, atomizados, na massa urbana.
Assim, outros sociólogos passaram a estudar a psicologia desse homem que vive perdido na massa (sem trocadilhos), o homem-massa. Para Gustave Le Bon, na massa os indivíduos perdem sua própria natureza, sendo facilmente influenciáveis, seduzidos por sentimentos simples e exagerados, têm a moral degradada e se tornam autoritário. Para ele a massa é feminina, impulsiva, móvel e dominada por uma mentalidade mágica (em oposição a “racional”). Ainda não existia feminismo na época... Também Ortega y Gasset via o homem-massa como um indivíduo violento, abrutalhado, atomizado e recluso nos espaços privados. O isolamento do indivíduo na massa é um pré-requisito básico para o funcionamento da teoria hipodérmica (ou bullet theory), já que é ele que permite que os meios de comunicação ajam sem qualquer impedimento.
Foi neste ambiente teórico que surgiram as primeiras das teorias da Comunicação, reunidas carinhosamente sob o nome de “paradigma da agulha hipodérmica”. Sua premissa básica está na idéia, tirada da psicologia behaviorista, de que cada estímulo dos meios de comunicação corresponde diretamente a uma resposta do público – que, por estar isolado na massa, não pode oferecer nenhuma resistência à influência sedutora da mídia. O behaviorista tinha como objetivo estudar o comportamento (behavior, em inglês) humano com os métodos de experimentação e observação das ciências naturais e biológicas. As pesquisas consistiam em aplicar a alguém um estímulo e observar sua resposta, tida como conseqüência direta do estímulo. O esquema seria simples: E -> R. Os pesquisadores da Comunicação não se deram nem ao trabalho de mudar as letras do paradigma behaviorista, onde se lia “estímulo” se passou a ler “emissor”, onde se lia “resposta” se passou a ler “receptor” e pronto: o primeiro esquema da Comunicação.
Fica fácil para qualquer um apontar os problemas da teoria da agulha hipodérmica, bem como do modelo matemático de comunicação que a embasa (logo vamos estudar de perto este modelo). Nesta perspectiva, os meios de comunicação são pensados como a causa única de seus efeitos, não levando em considerações mediações sociais importantes como a família, a classe social, entre outras. Raramente são levadas em consideração as diferenças que caracterizam cada meio em particular. Porém a principal deficiência da teoria hipodérmica está no modo como ela trata a recepção: ela simplesmente não trata dela. Se o receptor está indefeso e não pode oferecer qualquer resistência aos meios de comunicação não há porque estudá-lo. A seta só aponta para um lado, os receptores são alvos, passivos e indefesos. Também não se estuda propriamente o efeito que os meios causariam nas pessoas, eles são dados como certos. Procura-se antes analisar como as mensagens são construídas e que conteúdos elas carregam para produzir as respostas corretas nos receptores.
Claro que, a uma análise mais atenta essas teorias parecem, no mínimo, ingênuas. Porém, esse tipo de pensamento parece persistir, ainda hoje, em algumas “análises” dos efeitos dos meios de comunicação. Um bom exemplo é a denúncia da influência que as cenas violentas veiculadas na mídia têm na conduta dos espectadores. Vejam esse trecho de um artigo de nosso “cientista global”, Dráuzio Varela e percebam como, não só ele chega a conclusões próximas das teorias dos efeitos ilimitados como o faz a partir de pressupostos parecidos – como a observação de indivíduos isolados, a pesquisa quantitativa e a vocação laboratorial da psicologia behaviorista: “número de horas que um adolescente com idade média de 14 anos fica diante da televisão, por si só, está significativamente associado à prática de assaltos e à participação em brigas com vítimas e em crimes de morte mais tarde, quando atinge a faixa etária dos 16 aos 22 anos”, ou mesmo, “Os dados apontam de forma impressionante para uma conexão causal entre a violência na mídia e o comportamento agressivo de certas crianças”.